A crise energética que preocupa o Brasil também tem seu lado positivo. A alta demanda em um período crítico levou o País a buscar novas alternativas. Depois do fortalecimento da produção eólica, agora quem surge com força e destaque é outra fonte renovável: a solar. “Há aquele ditado que a dor ensina a gemer”, lembra o diretor da Siclo Consultoria em Energia Paulo Milano. O dirigente ressalta que, em momentos de dificuldades, surgem ideias criativas.

O especialista alerta que o desenvolvimento de novas fontes implica o aumento de custos, que de alguma forma são repassados às tarifas de energia. “Mas isso propicia que as pessoas acreditem em algo que parecia improvável, e agora a bola da vez é a solar, todo mundo só fala nessa energia”, ressalta. Milano acrescenta que essa fonte apresentava o obstáculo de ter um valor muito elevado de produção. No entanto, o avanço da tecnologia e o ganho de escala estão baixando o preço e tornando a opção viável.
O diretor da Siclo salienta que a solar tem uma vantagem em relação à eólica, outra fonte renovável que continua aumentando no Brasil, que é o fato de ser mais confiável, sem sofrer tanta oscilação quanto aos patamares de geração. Além disso, a instalação de painéis solares pode ser feita em uma variedade maior de lugares do que os aerogeradores.
O diretor executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Lopes Sauaia, vê grandes oportunidades no setor. “Se formos fazer a comparação com todas as outras fontes, a solar é a que tem maior potencial em longo prazo”, afirma o dirigente. Conforme Sauaia, a energia solar seria suficiente para atender à toda demanda de energia brasileira por muitos anos. Porém, o dirigente admite que o papel dessa geração atualmente é complementar.
Para o integrante da Absolar, um dos motivos que atraiu os empreendedores e o governo para a fonte solar foi a redução, em mais de 80%, do custo dessa geração nos últimos 10 anos. Além da melhoria da eficiência dos equipamentos, houve um ganho de produtividade com a realocação do parque industrial do segmento para a Ásia. Sauaia ressalta que o custo da energia solar depende de questões como o tamanho da usina geradora, tecnologia empregada e região onde o complexo está instalado. Mas, no primeiro e último leilão solar realizado até agora, promovido pelo governo federal em outubro de 2014, foi contratada uma capacidade instalada de 1.048 MW (cerca de 25% da demanda média de energia elétrica do Rio Grande do Sul), dividida por 31 projetos, com o preço-teto de R$ 262,00 o MWh. O preço-médio, ao final da disputa, ficou em R$ 215,12 o MWh. A maior parte da contratação corresponde a empreendimentos que serão construídos na Bahia, São Paulo e Minas Gerais.
Para este ano, Sauaia alerta que aspectos como variação cambial, dificuldades da economia, aumento de impostos e elevação do custo de financiamento no País vão pressionar o preço da energia solar para cima. O diretor da Absolar enfatiza que esse cenário impactará também as outras áreas de infraestrutura e, a longo prazo, a perspectiva continua de redução dos custos. O dirigente recorda que, para 2015, já está prevista a participação da fonte solar em dois certames, um a ser realizado em agosto e outro em novembro.
Patamar de 1 mil MW ao ano permitiria consolidação do setor
Para um crescimento sustentável, como ocorreu com a eólica, os empreendedores solares defendem que é preciso que o governo brasileiro viabilize, através de leilões, a contratação de pelo menos 1 mil MW solar anualmente. Essa tese é compartilhada entre o diretor executivo da Absolar, Rodrigo Lopes Sauaia, e o diretor da Conergy no Brasil, Eduardo Abreu.
“Uma média dessa é necessária para que se tenha uma demanda básica que justifique o investimento em fábricas no Brasil”, sustenta Sauaia. Abreu segue o raciocínio do integrante da Absolar e acrescenta que nenhum fabricante de ponta de equipamentos de geração solar está instalado atualmente no País, contudo, após o leilão de 2014, alguns já demonstraram interesse. “A partir do próximo ano, esperamos que um ou dois fabricantes estejam por aqui”, projeta.
Abreu enfatiza que a energia solar é a sensação do momento. Entre os motivos que explicam essa opinião, o executivo cita o fato de ser uma geração modular, formada por um conjunto de painéis pequenos, sendo possível produzir de forma distribuída, próximo ao ponto de consumo. Essa característica diminui a chance de desperdício de energia, com extravios na transmissão.
A Conergy é uma empresa especializada no planejamento, financiamento, construção e operação de sistemas solares de alto desempenho para residências, empresas e projetos de larga escala em comércio e indústria. A companhia tem no momento 50 MW em projetos licenciados para concorrer em leilões, empreendimentos que serão desenvolvidos no Nordeste. Na geração distribuída (de pequenos produtores), a meta do grupo é atuar em todo o Brasil vendendo ou arrendando instalações. Abreu informa que a companhia ainda não possui ações no Rio Grande do Sul, mas estuda iniciativas no Estado.
Assim como está despertando o interesse de grandes investidores, a energia solar também atrai a atenção de pequenos empreendedores através da chamada geração distribuída. A iniciativa consiste em um consumidor instalar, por exemplo, um painel fotovoltaico em sua casa ou empresa, gerar energia, atender a sua demanda e, por vezes, jogar energia na rede elétrica e obter créditos com a distribuidora local para diminuir a sua conta de luz. Vendo o potencial da ação, a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) analisa agora medidas para incentivar ainda mais essa atividade.
O executivo cita Porto Alegre como uma cidade que apresenta potencial para clientes residenciais e comerciais para a produção de energia solar distribuída. Segundo Abreu, em temos de irradiação, o Nordeste brasileiro destaca-se. Porém, na questão da geração distribuída, é preciso levar em conta na balança o preço da tarifa de energia de cada estado. Regiões em que a conta da luz é mais alta, como é o caso do Rio Grande do Sul em relação aos nordestinos, começa a ficar mais vantajosa a instalação de painéis fotovoltaicos nas residências. Usinas solar e eólica aproveitam mesmo espaço
Se complexos solares e eólicos podem ser considerados exemplos de geração de energia sustentável e com menor impacto ambiental, o que dizer quando estruturas dessa natureza coabitam o mesmo espaço? O pequeno município pernambucano de Tacaratu, com menos de 30 mil habitantes, vive uma experiência como essa.
Um parque eólico, com capacidade instalada de 80 MW, começou a ser implementado no local em 2013, pela italiana Enel Green Power. E, no ano passado, um projeto solar do mesmo grupo venceu um leilão de energia, dando condições da construção de um empreendimento, na mesma área do parque eólico, de 11 MW. “A curiosidade é que a unidade solar fica entre duas linhas de aerogeradores”, reforça o site manager da usina solar, Klaus Dal Pai Bohne. O dirigente salienta que, com a medida, foi possível aproveitar a subestação e linhas de transmissão já implementadas por causa da produção eólica. A previsão é que as obras do complexo solar, que absorverão cerca de US$ 18 milhões em investimentos, sejam finalizadas até agosto.
Bohne sugere como uma possibilidade de aproveitamento de área para a geração de energia fotovoltaica a instalação de painéis flutuantes em barragens. O dirigente reforça que, em contato com a água, há uma refrigeração natural dos equipamentos, permitindo um rendimento 20% superior às máquinas colocadas em terra. Outro lugar adequado para iniciativas como essa são estacionamentos. Hoje, o maior empreendimento solar desse tipo no Brasil encontra-se na sede das empresas do grupo Enel, em Niterói (RJ). O projeto foi desenvolvido pela Prátil, empresa de serviços do grupo Enel.
O presidente da Prátil, Albino Motta, informa que o estacionamento solar levou cerca de dois meses para ser construído e, desde o final de 2014, está funcionando. A capacidade de geração de energia do complexo é de 60 MWh por ano. Desde a sua inauguração, o projeto alcançou a marca de 22 MWh de geração de energia solar, volume suficiente para abastecer, ao mesmo tempo, cerca de 30 residências com consumo médio de 155 KWh ao mês.
“Produzir sua própria energia solar, além de contribuir para o meio ambiente e para o sistema elétrico, é um investimento que se paga”, afirma Motta. Atualmente, a instalação de um sistema solar paga-se, em média, entre cinco e oito anos, dependendo de variáveis, como, por exemplo, o valor da tarifa praticado pelas distribuidoras ou o índice de radiação solar da região onde o sistema será instalado.
Custos para soluções fotovoltaicas são bem variados
As diversas possibilidades de produção de energia através do sol fazem com que os gastos oscilem conforme o tamanho da geração que se pretenda atingir. Segundo informações da Epi Energia Projetos e Investimentos, os preços estão vinculados ao dólar e variam bastante, sendo que um de menor porte pode ir de R$ 12 mil, para uma casa com uma família de quatro pessoas, a mais de R$ 50 mil, para uma grande residência. Um de maior porte, para o setor comercial ou industrial, de 1 MW, pode alcançar um custo de mais de R$ 5 milhões.
A diretora da Epi Energia Projetos e Investimentos, Annelise Dessoy, acredita que a crise hídrica abre possibilidades para novas fontes de energia. Uma prova disso é a intensa procura que a companhia tem registrado pelos sistemas. A Epi, em dois meses, realizou mais de 400 orçamentos nos segmentos empresarial e residencial. No entanto, Annelise diz que um dos problemas para essa área desenvolver-se mais rapidamente é a falta de financiamentos atrativos e isenções de impostos mais ousadas.
Lidio Rauber, diretor executivo do Hospital Ana Nery, em Santa Cruz do Sul, foi um consumidor que resolveu instalar um sistema fotovoltaico em sua residência. Já na primeira conta de luz, ele percebeu uma redução de cerca de 30%. Segundo ele, a projeção era de que o investimento na instalação do equipamento (cerca de R$ 15 mil) se pagasse em oito a 10 anos. “Mas, com essa alta da energia, deve se pagar em menos tempo”, prevê.
Por: Jefferson Klein
Fonte: Jornal do Comércio