Em meados de 1982, tive uma experiência profissional muito desagradável que mudou o meu comportamento em relação à segurança em eletricidade.

Como responsável pela montagem elétrica e instrumentação, tinha aproximadamente 300 trabalhadores sob minha administração. Cerca de 50 deles, trabalhavam na montagem de uma SE de distribuição que consistia de uma entrada dupla em 34,5 kV subterrânea, com painel de media tensão, que alimentava dois transformadores de 1500 kVA e um de 2500 kVA e, destes, para dois painéis de 480 V, um de 2,4 kV.

Depois de instalados os principais equipamentos, a empresa contratante iniciou os trabalhos de comissionamento no painel de entrada através de uma empresa especializada. Como a área era isolada, não tive nenhum problema em manter os meus colaboradores trabalhando no local.

Uma vez terminado o comissionamento do painel de entrada de 34,5 kV, a empresa decidiu energizar o painel de entrada de 34,5 kV, pois estava programada a visita de um dos diretores e o responsável pela obra queria mostrar o avanço. Esta energização seria mantida durante uma semana, somente para a visita.

Quando fui informado sobre a energização, informei que nenhum trabalhador sob minha responsabilidade iria adentrar na SE, e os serviços de montagem seriam interrompidos enquanto o painel estivesse energizado. A empresa contratante não aceitou, mas mantive a minha posição, com anuência da minha gerência, alegando que o meu pessoal era de montagem e não de manutenção, operação, nem de comissionamento, e que não possuía qualificação para trabalhar na proximidade de equipamento energizado.

Foi aproximadamente uma semana de discussão e mudança de planejamento, para deslocar o meu pessoal da SE para outras áreas. Enfim, a empresa concordou e somente o pessoal de comissionamento iria trabalhar dentro da SE energizada. A SE foi energizada no final de semana.

Uma segunda feira fatídica de agosto de 1982. Em torno das 11:30 da manhã, eu estava reunido com o assistente técnico da elétrica e instrumentação numa sala ao lado da SE, e de repente ouviu-se um zumbido. O assistente, um senhor muito experiente de longa data no trecho, imediatamente gritou: “pegou alguém, foi choque”.

Imediatamente, fomos para a sala da SE, e ao nos aproximar, vimos o responsável da empresa correndo para o prédio administrativo, e da parte externa pude notar que uma pessoa estava estendida no chão, com pernas cruzadas apresentando contração.

Após o primeiro socorro, a vítima foi levada para a central de atendimento do polo, mas não resistiu ao choque, vindo a falecer.

O técnico de comissionamento, havia realizado todos os testes no painel de 34,5kV e estava dando continuidade ao comissionamento de transformador e painel de 2,4 kV, sozinho na SE. Ele esbarrou o seu joelho no barramento de 34,5kV. Especulo que durante o comissionamento do transformador ele notou algo de errado na proteção primária do transformador e foi até o painel de 34,5 kV.

Antes da tragédia, depois de energizado o painel, o técnico solicitou uma folga no final de semana, para ficar com a sua família, a esposa e o filho pequeno que vinha passar o final de semana, um encontro em família depois de quase um mês longe de casa.

O entusiasmo, a predisposição provavelmente fez com que ele voltasse ao trabalho na segunda feira com cabeça mais fresca, até esquecendo que ele havia energizado o painel de 34,5 kV. A concentração na verificação de intertravamento do lado da baixa tensão, fez com que ele esquecesse que o painel estava energizado, e foi verificar.

Se tivesse alguém por perto para alertar sobre o risco, se a gerência não tivesse priorizado a energização e tivesse a mesma preocupação que tive com o meu pessoal……

 Não havia nenhuma necessidade de energia para a unidade, pois a obra ainda estava em andamento e a primeira unidade estava prevista para entrar em operação aproximadamente seis meses depois. A vida de uma pessoa foi sacrificada quando foi dado prioridade para demonstrar o avanço do trabalho para os diretores, e o princípio de segurança em eletricidade não foi considerada.

Segurança requer um planejamento minucioso, não é prioridade, mas um princípio.

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