Do alto dos meus 52 anos de idade, ainda jovem e com força para continuar, e com a propriedade de quem luta pela segurança com eletricidade, tenho visto muitos programas florescerem e crescerem. Já vi a mudança da energia hídrica para eólica e, agora, para a solar fotovoltaica. Já vi a lâmpada incandescente ser trocada por vapor de mercúrio, sódio, fluorescente e agora é o LED. Também já vi o projeto de economia de energia que virou eficiência energética e hoje é sustentabilidade. O único projeto que não vi crescer e florescer é o da segurança de quem trabalha, sobretudo com a eletricidade, e neste viés a luta para garantir que as pessoas que utilizam eletricidade possam também estar seguras.

Cientistas do mundo todo incluindo inúmeros brasileiros, trabalham constantemente para informar o tamanho do buraco na camada de ozônio, o derretimento das geleiras e o aquecimento das marés, por sua vez a mídia divulga constantemente estes números e os inúmeros projetos que visam minimizar este assunto. Os maiores países do mundo se reúnem de tempos em tempos para discutir como vão fazer para diminuir a geração de carbono em gigantescos seminários e presença dos principais gestores (presidentes e primeiros ministros). Compromissos são assinados em níveis internacionais, nacionais, estaduais e municipais, com o intuito de tornar sustentável a vida. Nas empresas, o programa de eficiência energética e economia de energia são comemorados com a palavra do presidente, com uma equipe específica para esta atividade e um orçamento. Entidades, fundações e empresas lançam projetos e premiam diversos temas inovadores, mas praticamente nenhum deles incentiva a segurança. Por isso, a pergunta que faço: quando será a nossa vez, ou melhor, quando será a vez de pensarmos em segurança no âmbito da eletricidade?

O Brasil tem se esforçado para alinhar as normas técnicas sobre a eletricidade e segurança com o mundo. O COBEI vem revisando, atualizando e incentivando a elaboração de normas técnicas que possam embasar os serviços e produtos de qualidade e segurança. Temos até feito mais do que a maioria dos países, como é o caso do texto normativo de segurança em eletricidade (NBR16384) que está em consulta pública e deverá ser publicada até o final do ano. Traz ainda legislações federais como a Lei 11337/2006 que fala da obrigatoriedade de se instalar o condutor de proteção (Fio Terra) em todas as edificações, alias a lei é conhecida como “Lei do Fio Terra”. Mas, infelizmente isto não tem sido uma prática no Brasil.

A poucos dias de iniciar os Jogos Olímpicos no Brasil (momento em que eu escrevia este artigo), soubemos de vazamentos e curtos circuitos nos apartamentos que vão abrigar as delegações participantes. Mas a pergunta que fica é: estes apartamentos não tiveram suas instalações executadas de acordo com seus respectivos projetos? É claro que não! E os números de acidentes que a ABRACOPEL levanta mostram este descaso. Foram 1.222 acidentes de origem elétrica em 2015, somente com base nas notícias que nos chegam diariamente. Sabemos que o número pode superar os 3 mil acidentes, e cerca de 1500 fatalidades. Este número pode ser maior do que os casos fatais registrados devido ao mosquito da dengue. Mas na eletricidade, não se dá a devida importância.

A engenharia elétrica está sucateada. Profissionais de todas as modalidades se arvoram a projetar e instalar eletricidade, muitas vezes sem o devido conhecimento ou com o conhecimento reduzido, e acabam contribuindo para esta condição. Ainda não posso afirmar, mas tenho percebido que o problema neste caso é dos próprios profissionais da área elétrica que não ocuparam seus espaços e não orientam seus clientes e possíveis clientes de forma adequada. Se um cliente não tem informações de como contratar, tem grande chance de contratar gato por lebre, ou pedreiro por eletricista, não é mesmo? Ainda neste tema: profissionais desqualificados – é possível ver o descaso nas obras para a Copa de 2014 e para as Olimpíadas: ciclovia que cai, viaduto que desaba, prédios que inundam e apresentam curtos circuitos. Outro descaso que vejo está nos poderes públicos. A maioria das prefeituras não tem engenheiros nos cargos de obras e serviços, e quando tem são os genéricos, ou seja, um engenheiro civil que deve cuidar de tudo, incluindo iluminação publica, ou um engenheiro eletricista cuidando do asfalto.

Desculpe este meu desabafo, mas lutamos para que este cenário mude, e o que vemos é que estamos na contramão da realidade. Seria muito mais fácil criar uma associação que falasse de sustentabilidade, teríamos inúmeros recursos de várias entidades internacionais, mas para falar de segurança e, principalmente, com a eletricidade, não tem quase nenhum. Até as empresas concessionárias de energia elétrica, para realizarem ações de conscientização sobre os riscos, devem tirar recursos extras de seus bolsos, mas se eles tiverem um projeto para falar de Eficiência Energética, já tem um programa que os fazem gastar parte de seus lucros. O governo federal criou o PROCEL e todos sabem sua função, mas cadê o PROSEG? Porque não há uma política onde as empresas devem investir uma porcentagem de seus lucros em SEGURANÇA? O que temos é a tal da SIPAT, que na maioria dos casos tem um orçamento ridículo, com um grupo reduzido e que acaba somente cumprindo tabela como se diz no jargão popular.

ATE-QUANDO

Minha pergunta continua? Até quando vamos continuar lutando para que as pessoas não morram por choque elétrico ou patrimônios não sejam perdidos por incêndios gerados por sobrecarga ou curtos circuitos.

Se você é uma pessoa consciente, junte-se a nossa causa, leve nossa informação até sua comunidade, ajude os nossos projetos a se tornarem mundialmente conhecidos e contribua para que os acidentes de origem elétrica sejam evitados com instalações elétricas mais seguras.

 

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