São dois séculos de história da eletricidade e eletrotecnia, em mais de 650 peças, muitas delas resgatadas de caves do Instituto Superior Técnico

Numa daquelas resoluções de início de ano, num dia de janeiro de 2015, Carlos Ferreira Fernandes lançou-se à empreitada de mudar a disposição das coisas no laboratório. Desempilhou papéis, arrumou, soprou o pó a uns quantos aparelhómetros antigos que desencantou no fundo dos armários e decidiu pô-los à vista nas prateleiras. “Aquilo ficou giro”, lembra com um grande sorriso o engenheiro e professor do Instituto Superior Técnico (IST). Tão giro, que o colega de departamento Moisés Piedade, lhe lançou o desafio: “E se fizéssemos um museu?”

Hoje, passados dois anos – e muito trabalho, com muitos dias a vasculhar as caves e a desenterrar de lá tesouros, a limpar-lhes o pó e a pô-los a funcionar -, nasce no Departamento de Engenharia Electrotécnica e de Computadores (DEEC) do IST o Museu Faraday.

São mais de 650 peças, algumas autênticas preciosidades, objetos belíssimos, engenhosos e até elegantes, que contam a história, desde o século XIX até ao presente, da eletricidade e das tecnologias que se lhe foram associando, década após década, cada vez mais complexas, cada vez mais miniaturizadas, mais velozes e eficientes. Dos primeiros contadores de energia dos anos de 1880, com os seus pêndulos e bobinas, aos primeiros dínamos (1842); do requintado telefone de Gower Bell (1882), que foi, aliás, o primeiro que existiu do Instituto Superior Técnico, aos recetores de rádio iniciais, da década de 1920, e por aí fora, o fonógrafo de Edison, os primeiros gravadores de fios magnéticos, os transístores e a sua revolução, a televisão, os primeiros computadores, as disquetes, os chips…

No fio desta história, que é afinal a da aventura humana nas tecnologias associadas à eletrotecnia, cada peça tem também a sua pequena história. Lá está, por exemplo, logo à entrada da exposição, a meio da escada que dá acesso à maior das salas do Museu Faraday – são sete, cada uma dedicada à uma temática -, a chamada bateria de garrafas de Leyden: um conjunto de frascos, literalmente, dispostos em várias filas. “Esta foi a primeira bateria inventada, é de 1780”, explica Moisés Piedade.

Hoje, quando o novo museu for inaugurado, às 18.00, no IST – por onde passaram nomes como António Guterres, Mariano Gago ou o atual ministro da Ciência, Manuel Heitor – aquela bateria histórica há de estar a funcionar.

Ontem, Carlos Ferreira Fernandes, Moisés Piedade e o resto da equipa (são quatro pessoas no projeto) ainda davam os últimos retoques nas salas do museu e na exposição que o precede, escada acima.

“Há ainda uma série de coisas para arrumar, máquinas que têm de ir para outros sítios, cartazes que ainda temos de colocar, alguns testes para fazer, está quase, quase”, garantia Carlos Ferreira Fernandes, aproveitando para dar mais uma explicação, mostrar mais um pormenor. Como o do pequeno gravador de espiões da década de 1970, uma preciosidade de miniatura, com as duas pequenas bobinas de fita magnética, os microfones minúsculos, insuspeitos, que se podia usar secretamente no bolso. “Este gravador foi desenvolvido para a CIA, a pedido de Kennedy, e durante 10 anos ninguém sabia que isto existia”, explica Simões Piedade. Como esta, há por ali muitas outras histórias e curiosidades. É ir até lá, para ver.

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