Brasil dá exemplo ao mundo ao abrir espaço a formas de energia cada vez mais limpas, reduzindo sua dependência dos combustíveis fósseis e até das hidrelétricas

O mundo sempre volta a discutir as possíveis alternativas para os combustíveis fósseis a cada nova crise do petróleo, como a que acaba de vitimar a Petrobras. Razões não faltam. Além de espalhar guerras e crises econômicas pelo mundo, os campos de exploração, com reservas cada vez mais escassas, são a principal fonte para o aquecimento global: o nível do mar subiu mais no último século do que nos três mil anos anteriores. Mas também há boas notícias, e elas vêm do Brasil. Por aqui, o uso das energias renováveis cresce muito acima da média mundial.

Segundo cálculos da Agência Internacional de Energia, o mundo precisa investir US$ 270 trilhões até 2050 para reduzir de 80% para 50% a participação do petróleo na matriz energética do mundo, um dinheiro que ninguém está disposto a gastar. Quem vem tentando é o Japão e suas montadoras de carro. Embora a gasolina seja apenas o mais famoso dos derivados do petróleo, substituí-la por hidrogênio pode converter em vapor d’água as toneladas de gás carbônico que poluem a atmosfera. Abastecer nem é tão caro, mas fabricar o veículo custa uma fortuna. Por lá, um automóvel popular sai pelo equivalente a R$ 130 mil mesmo com subsídio estatal. No Brasil, a alternativa mais viável ainda é o etanol, embora ninguém mais espere que ele substitua a gasolina. A demanda pela versão hidratada, sem a adição de gasolina (anidro), deve chegar a 27 bilhões de litros em 2024, em um ritmo de crescimento de 6,8% ao ano, enquanto a procura pelo etanol anidro atingirá 13 bilhões de litros, acréscimo anual de 1,9%, de acordo com o Plano Decenal de Energia do Ministério de Minas e Energia. Além de encher o tanque, os derivados do petróleo, como óleo e gás, também são opção para abastecer usinas termelétricas, caras e poluentes. No Brasil, elas foram usadas à exaustão até o ano passado em razão da seca que comprometeu os reservatórios das hidrelétricas. Embora muitas delas tenham sido desligadas no começo deste ano após a redução da estiagem, sua participação  total na geração de energia elétrica deve saltar de 12,4% para 14,4% até 2024.

As más notícias terminam aqui. Segundo o relatório Energia no Bloco dos Brics, o grupo econômico formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, ninguém usa menos combustíveis fósseis na matriz energética do que o Brasil. Enquanto eles representam 22% da geração total do parque energético nacional, mais de 75% da produção energética na África do Sul, China e Índia vêm da energia fóssil. Na Rússia, são 66%. Ainda de acordo com o relatório, a proporção de energia renovável – incluindo as grandes hidrelétricas – nos Brics é de 14,2%, enquanto a média mundial gira em torno de 13,6%. No Brasil, ela é de 39%, quase três vezes mais. As hidrelétricas, no entanto, não são unanimidade entre ambientalistas. Apesar de não poluentes, significam desmatamento de grandes áreas e destruição de moradias. Só a usina de Belo Monte, próximo ao município de Altamira, no Pará, despejou três mil famílias. Mesmo quando as hidrelétricas são retiradas da conta, o Brasil dá exemplo. Segundo o Ministério de Minas e Energia, as usinas eólica, solar e térmica movida à biomassa e as pequenas centrais hidrelétricas verão sua participação no parque de geração saltar de 20,9% para 27,3% entre 2018 e 2024. No mesmo período, a participação das hidrelétricas de grande porte cairá 8,8%, de 65,5% para 56,7% do total.

Mas é a energia eólica a menina dos olhos. O estímulo a sua produção começou em 2002, com a criação de um programa para diversificar a matriz por meio de subsídios. Regulamentado por decreto em 2004, o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica passou a vigorar no ano seguinte. Um sucesso. Hoje, são 360 parques eólicos em atividade e 402 em construção, que devem somar 9,81 gigawatts de energia, mais do que o dobro da capacidade atual. “O potencial eólico brasileiro gira em torno de 500 gigawatts”, contabiliza a presidenta da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEEólica), Elbia Melo. Hoje, a energia dos ventos participa com pouco mais de 6% da matriz elétrica nacional, suficiente para dar ao Brasil a décima posição entre os maiores parques eólicos do mundo. Desde que o programa saiu do papel, os investimentos bateram em R$ 52 bilhões, geraram 130 mil empregos, 40 mil só em 2015. “Levamos energia a 15 milhões de casas. São 16 milhões de toneladas a menos de CO2 na atmosfera”, diz Elbia.

Outra fonte que promete crescer nos próximos anos é a solar. O primeiro leilão realizado em nível nacional só aconteceu em outubro de 2014. No ano passado foram mais dois. Juntos, vão tirar do papel 63 usinas e investimentos de R$ 8 bilhões. Em 2015, ano de estagnação econômica, a área de microprojetos, como a instalação de painéis solares sobre o telhado, cresceu 308% em relação ao ano anterior, muito em razão das altas tarifas de energia. “Pessoas e empresas buscaram alternativas para reduzir a conta de luz”, explica Rodrigo Lopes Sauaia, diretor executivo da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar). O setor só não cresce mais porque entre 40% e 60% do custo de um painel são impostos. “É preocupante”, diz Sauaia, que sugere uma portaria interministerial incluindo esses insumos no Programa de Apoio e Desenvolvimento Tecnológico da Indústria de Semicondutores, desonerando o setor. “Muitos fabricantes querem aderir ao programa, popularizando esse tipo de energia.”

Também está nas mãos do governo a solução para o único entrave enfrentado pela indústria eólica: a expansão cresce a um ritmo tão forte que faltam linhas de transmissão. Atualmente, 11 usinas estão prontas, mas paradas por falta de rede.

Fonte: brasileiros.com