“Teremos meio século de mudança nas fontes de energia nos próximos 10 anos”

Entrevista concedida pelo ambientalista Lester Brown ao jornalista Lucas Mendes, para o programa Milênio, da GloboNews. O Milênio é um programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira com repetições às terças-feiras (17h30), quartas-feiras (15h30), quintas-feiras (6h30) e domingos (14h05).

Quando em 1956 a expressão mudança climática foi criada em Nova York, já havia há muito tempo poluição no ar, nos rios, nos mares, fome, imigração, desmatamento, erosão, envenenamento do solo, secas e enchentes. A expressão aquecimento global nasceu 20 anos depois. Hoje, as duas se confundem e nosso planeta está a cada dia mais ameaçado pela destruição do homem. Lester Brown cresceu em uma fazenda sem luz elétrica nem água corrente em Nova Jersey e se tornou um dos maiores produtores de tomate da região. Apaixonado pela terra, foi trabalhar no Ministério da Agricultura americano e ainda na década de 60 fez seus primeiros alertas sobre os perigos que ameaçavam a saúde do planeta. Em 75, com fundos dos irmãos Rockefeller, criou o Worldwatch Institute, depois o Earth Policy Institute. Aos 81 anos, este ambientalista pioneiro está pronto para a aposentadoria oficial, mas segue ativo e inquieto. No seu último livro, Brown se mostra um pouco mais otimista com o crescimento das indústrias de energia limpa que um dia vão substituir as fontes fósseis, mas na entrevista que deu ao Milênio em Nova York, lembra que não é hora de baixar a guarda.

Lucas Mendes — Pode nos dar uma ideia de como essa transição está avançando e compará-la com outras transições?
Lester Brown — As primeiras transições foram da madeira para o carvão, e ela aconteceu ao longo de dois séculos ou mais, depois do carvão para o petróleo, ou carvão e petróleo, que aconteceu há um século e meio, quando o petróleo foi descoberto. Mas o petróleo cresceu muito no século passado e no início deste. Agora, esta transição de combustíveis fósseis — carvão e petróleo — para energia solar e eólica vai acontecer muito mais rápido que as outras. Eu acho que veremos meio século de mudança na próxima década. Um dos motivos é que as células fotovoltaicas já são economicamente competitivas e, para muitas pessoas, nos Estados Unidos e em vários países, já é mais barato instalar painéis solares no telhado para ter eletricidade do que comprá-la da companhia elétrica. Isso é competitivo e, pela primeira vez, temos uma fonte de energia alternativa competitiva no mercado, portanto sua adoção será impulsionada pelo mercado.

Lucas Mendes — E quanto à energia eólica?
Lester Brown —
A energia eólica também está chegando. A diferença é que ninguém instalará moinhos de vento no telhado, já painéis solares cabem em qualquer lugar. A energia solar será a principal e a eólica, a segunda. A energia eólica é muito presente nas grandes planícies e no meio-oeste americano. Estados como Kansas e Texas estão pensando em exportá-la. O Texas exportava petróleo e agora quer exportar eletricidade gerada pelo vento. Está construindo as linhas de transmissão.

Lucas Mendes — Você falou em 50 anos, meio século, para esta transição. É deste período que está falando? A partir de quando?
Lester Brown —
A partir de agora. As coisas acontecerão tão rápido que teremos meio século de mudanças na próxima década.

Lucas Mendes — Quando escrevi minha 1ª reportagem sobre a poluição do ar no Brasil, você já estava na sua luta para salvar o planeta havia dez anos. Hoje, em São Paulo, mais gente morre por causa da poluição do que de acidentes de carro, câncer de seio e Aids juntos. Você e a civilização estão perdendo a guerra?
Lester Brown —
A situação atual é muito séria. Muitos diplomatas não aceitam postos em Pequim porque não querem levar suas famílias para lá. As estatísticas sobre os efeitos daquele ar muito poluído na saúde e na expectativa de vida são assustadoras.

Lucas Mendes — Nem é preciso ir tão longe. No México é a mesma coisa.
Lester Brown —
Na Cidade do México, pois é. Estamos começando a ver, pela primeira vez desde que comecei a trabalhar com isso, uma forma de superar a poluição ar, as mudanças climáticas, com energia solar e eólica. Passamos de carvão e petróleo para sol e vento. E essas fontes de energia estão crescendo de 30% a 50% ao ano. Começaram de uma base pequena, mas estão crescendo rápido. Mas teremos parques solares, teremos áreas, talvez antigos depósitos de lixo, que uma empresa aterrará, instalará painéis solares e venderá a eletricidade para a prefeitura, por exemplo.

Lucas Mendes — Mas essa guerra para salvar o planeta tem muitas frentes. Temos controle populacional, imigração, erosão do solo, água, secas, enchentes e muitas outras. Onde vê progresso e onde vê retrocesso?
Lester Brown —
Bem, o progresso imediato e, de certa forma, o mais importante virá com a transição da matriz energética. Isso é importante. Além disso, temos que estancar o crescimento populacional. São 81 milhões por ano, o que significa que esta noite haverá 216 mil pessoas à mesa que não existiam ontem. E amanhã haverá mais de 216 mil. Não pode ser assim indefinidamente. A boa notícia é que, em grande parte do mundo, a população se estabilizou.

Lucas Mendes — E há países que estão perdendo população.
Lester Brown —
O que não acho que seja um grande problema. Claro que afeta a relação entre velhos e jovens, mas os mais velhos não estão se aposentando tão cedo, porque vivem mais e com mais  saúde. Não acho que esse será um grande problema.

Lucas Mendes — Vou mencionar alguns países para você me dizer quais estão indo bem e quais estão indo mal. Vamos começar pelos EUA.
Lester Brown —
Estamos vendo avanços importantes. Um dos mais importantes é que o presidente Obama assinou uma medida provisória há uns 3 anos, que exige a duplicação de carros novos com baixo consumo de combustível, até 2026, ou algo assim. E a indústria automobilística está seguindo essa tendência. Isso é importante, mas mais ainda é o fato de que os carros serão cada vez mais movidos a eletricidade. Acho que a Tesla, uma líder dinâmica nesta área, está ditando o ritmo e outras estão acompanhando. A grande questão é o desenvolvimento de baterias para uso em carros elétricos. E o mais empolgante em relação aos carros elétricos é que, se instalarmos painéis solares nos telhados das casas… Muitas construtoras já fazem isso automaticamente. Se cobrirmos o telhado com painéis solares, teremos eletricidade suficiente para abastecer a casa e também para os carros.

Lucas Mendes — Falamos dos EUA. E como a China está se saindo?
Lester Brown —
A China foi um dos primeiros países a lidar com a questão populacional com seu programa do filho único e agora está se beneficiando disso. Eles ganham nota 10 por isso. Enfrentaram o problema e administraram de forma muito eficiente. Agora os chineses estão percebendo que a poluição do ar pode ser um problema político nas cidades, então estão fazendo muito rápido a mudança para energia solar e eólica. Na China, se a geração de energia nuclear cresce assim, a geração de energia eólica cresce assim. A eólica já superou a nuclear, mas não foi aos poucos, foi muito rápido. A energia eólica ganhou importância lá, e a Mongólia tem potencial eólico para gerar eletricidade para todo o país. Então a China está abandonando o carvão. A Índia está mais devagar. Demorou mais a lidar com a questão populacional. Acho que a população lá está crescendo 2% ao ano, o que é melhor do que 3%, mas ainda é muito alta, e está atrasada no desenvolvimento da energia solar. Não falta luz solar na Índia, que fica perto do Equador. Mas o país não é líder nessa área. Eles começam a avançar, mas ainda estão pensando no carvão como combustível importante.

Lucas Mendes — Entre os países europeus, quem lidera essa luta?
Lester Brown — A Dinamarca. Os dinamarqueses são um povo socialmente sensível, assim como a maioria dos norte-europeus e, por não ser um país grande, avança mais rapidamente do que por exemplo uma Alemanha. Mas eles estão… Em alguns dias, eles geram 40%, 50%, num dia de vento até 60% da eletricidade a partir do vento, então estão muito avançados. Será o primeiro país a gerar mais eletricidade a partir do vento do que do carvão. Talvez até já tenham atingido isso. É um grande passo. Em 4 estados alemães aconteceu o mesmo.

Lucas Mendes — E quanto ao Brasil? O que sabe sobre nosso belo país?
Lester Brown —
O Brasil sofre do mesmo problema que os EUA, que é mentalidade de fronteira. Somos países grandes, não densamente populosos, com muitos recursos, então a urgência não é a mesma da Europa, por exemplo, que é mais populosa e não tem mais onde explorar, então precisa começar a pensar num novo modelo. Por isso os europeus estão à frente dos EUA e do Brasil.

Lucas Mendes — Falamos de países. Vamos falar agora das pessoas que estão lutando para salvar o planeta. O Papa Francisco acabou de entrar na luta. Antes o Vaticano não havia se pronunciado sobre o meio ambiente. O Papa faz muita diferença?
Lester Brown —
Faz, sim. Ele foi convidado para falar no Congresso?

Lucas Mendes — Ainda não, mas ele virá aos EUA este ano. Não sei se ele falará ao Congresso.
Lester Brown —
Sabe quem está preocupado com a vinda dele? A indústria de carvão e de petróleo, porque ele vai falar do clima, vai dizer que ganhamos de Deus esse sistema ambiental e que somos os responsáveis por cuidar bem dele. É teologia do Velho Testamento. E não estamos fazendo um bom trabalho.

Lucas Mendes — Você é autor e coautor de 54 livros, tem 25 títulos honorários e é reconhecido em vários países. Seu livro foi traduzido para quantas línguas?
Lester Brown —
Acho que o número total de línguas é 42, mas o total de edições de todos os livros é 577.

Lucas Mendes — Você gosta de mencionar Pearl Harbor em suas palestras como uma solução extrema. Explique a ligação entre Pearl Harbor e o meio ambiente.
Lester Brown —
Bem, Pearl Harbor foi um alerta para os Estados Unidos. O presidente Roosevelt e o povo americano esperavam que pudéssemos evitar o envolvimento na guerra na Ásia e na Europa, mas não funcionou. O ataque a Pearl Harbor foi o que provocou a reação. Mas o mais impressionante foi a forma como o país se mobilizou. Passamos de uma economia em modo depressão para a produção — estou tentando lembrar os números — de 60 mil aviões, 100 mil tanques ou algo assim, uma quantidade imensa. E Roosevelt fez isso proibindo a venda de carros novos nos EUA. Ou seja, a indústria automobilística não resolveu construir tanques, veículos blindados ou aviões, simplesmente não teve escolha.

Lucas Mendes — Alguns cientistas dizem que a seca na Califórnia é a pior em 12 séculos. É verdade? E qual é a mensagem?
Lester Brown —
Pode ser. É uma seca muito grave, sem dúvida. E uma das dúvidas é: é algo temporário ou faz parte de uma mudança climática? O que sabemos sobre o sistema climático é que é impossível mudar parte dele sem afetar todo o resto, e estamos afetando partes dele. O desmatamento no Brasil está alterando o clima na área. Isso vai afetar todo o sistema, só ainda não sabemos como.

Lucas Mendes — Há uma seca grave lá também. A água de São Paulo está acabando.
Lester Brown —
Pois é. E o desmatamento no litoral do Atlântico vai exacerbar isso, já está contribuindo, porque reduz a capacidade de reciclar a chuva no interior. Se há árvores lá, quando chove, um quarto da água escorre e três quartos são reciclados para o interior. Mas, se não há árvores, três quartos escorrem imediatamente e muito menos água vai para o interior, então eu diria que São Paulo é uma das primeiras provas do efeito das mudanças climáticas. Acho que a maioria das pessoas ainda não percebe isso, e também não posso garantir, mas me parece que uma das manifestações da mudança climática é o que está acontecendo em São Paulo.

Lucas Mendes — Vamos falar sobre os inimigos do seu exército para salvar o planeta. Quem são os inimigos mais poderosos?
Lester Brown —
A indústria de petróleo e carvão faz tudo que pode para evitar a transição da energia fóssil para a solar e eólica. Mas está fracassando. Eles têm muito dinheiro, têm os irmãos Koch…

Lucas Mendes — Têm amigos em Washington…
Lester Brown —
Amigos em Washington, mas não vai dar certo.

Lucas Mendes — Então você não está pessimista.
Lester Brown —
Não.

Lucas Mendes — Interessante. Então não se preocupa com os republicanos conservadores.
Lester Brown —
Não é que eu não me preocupe com eles, mas acho que eles estão do lado dos perdedores.

Lucas Mendes — Viu um documentário chamado The Merchants of Doubt?
Lester Brown —
Ouvi falar nele, mas não vi.

Lucas Mendes — O essencial do documentário, que é muito interessante, é que as mesmas pessoas que geraram dúvida em relação à indústria do tabaco, dizendo que não era possível provar que o cigarro causa câncer… A teoria é que se você gera dúvida suficiente, as pessoas ficam paralisadas e aceitam a dúvida. Acho que é isso que vemos hoje em relação à mudança climática. Eles geram dúvida: “Não, o homem não tem nada a ver com isso.” É um método muito eficiente.
Lester Brown —
Eles certamente estão tentando, mas não estão ganhando.

Lucas Mendes — Entre os documentários, filmes e livros, durante a sua vida, quais foram os que mais ajudaram nessa luta para salvar o planeta?
Lester Brown —
O livro que mais me afetou pessoalmente foi um que li aos 9 anos de idade chamado A família Robinson. É sobre uma família isolada numa ilha e como ela sobrevive. Os outros livros que influenciaram não só a mim, mas o mundo foram Primavera Silenciosa, de Rachel Carlson, sobre o uso indiscriminado de pesticidas que provocaria a extinção das aves, e Os Limites do Crescimento.  Esses livros foram lançados num intervalo de poucos anos, e são livros com abordagens muito diferentes. Um parte da questão da poluição e o outro começa com recursos básicos: água, florestas, terras para pasto e cultivo etc. Esses são dois livros importantes e, como foram lançados em datas próximas, apesar de não terem sido vistos como complementares, acho que, juntos, provocaram a sacudida que nos levou a repensar.

Lucas Mendes — E quanto a Al Gore?
Lester Brown —
Ele é tão recente que acho que tudo já estava caminhando antes dele. E, apesar de ele ter a mentalidade certa, por causa de seu passado político e sua personalidade, ele não causa o efeito desejado. Mas está do lado certo e está se esforçando.

Lucas Mendes — Você cresceu numa fazenda e se tornou um produtor de tomate de sucesso. Acho que era o maior produtor de seu estado, Nova Jersey. Mas parece que se transformou quando visitou a Índia. Foi isso mesmo?
Lester Brown —
A Índia… É claro que passar meio ano em vilarejos da Índia para quem vivia numa fazenda em Nova Jersey é uma experiência e tanto e abre a cabeça da pessoa. Na juventude, eu li com muito interesse os livros de viagens de Richard Halliburton. Ele começou a viajar cedo e registrava suas experiências. Ele atravessava desertos, escalava montanhas e atravessou o Canal do Panamá a nado. E teve que pagar um frete de US$ 1,23. Esse tipo de coisa. A mulher que escreveu o livro I Married Adventure. Esses foram alguns livros que…

Lucas Mendes — Então você gostava de aventuras.
Lester Brown —
Mas eu também, na juventude, li muitas biografias: dos fundadores dos EUA, de Marie Curie, de vários outros cientistas e líderes, portanto, acho que subconscientemente, por ser tão jovem, comecei a me associar a eles e a ver o que eu poderia fazer para ser como eles.

Lucas Mendes — Entre os fundadores dos EUA, qual você acha que era o mais preocupado com o ambiente?
Lester Brown — Jefferson certamente teve uma boa educação e era fazendeiro…

Lucas Mendes — Todos eles eram fazendeiros.
Lester Brown —
Certo, mas a pessoa que mais me influencia é Lincoln. Jefferson recebeu uma ótima educação, enquanto Lincoln teve um ano de educação formal. Você imagina hoje alguém escrevendo o Discurso de Gettysburg num saco de papel…

Lucas Mendes — Sem ter estudado.
Lester Brown —
Ele era extraordinário. E muita gente não sabe, mas ele foi o único presidente a solicitar o registro de uma patente e conseguir.

Lucas Mendes — Foi um barco que ele desenvolveu, certo?
Lester Brown —
Ele bolou uma forma de desencalhar os barcos que ficavam presos nos lodaçais do rio Mississippi. Ou seja, ele era extraordinariamente versátil. Não era apenas…

Lucas Mendes — Mas ele ajudou o meio ambiente? Isso o preocupava?
Lester Brown —
Ele entendia o meio ambiente, porque compreendia muito bem todas as coisas.

Lucas Mendes — O que vai fazer quando se aposentar?
Lester Brown —
Não planejo me aposentar. Eu me afastei da presidência do Earth Policy Institute, mas pretendo continuar pesquisando e escrevendo, como fiz no passado, mas sem responsabilidades administrativas. Estou escrevendo um livro sobre a situação hídrica mundial.

Lucas Mendes — Então aposentadoria significa escrever, ou ditar, como você costuma fazer.
Lester Brown —
Significa mais tempo para escrever.

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