Porque acontecem acidentes fatais com pessoa experientes, mesmo com programas de segurança eficazes?  Parte 3

A maioria dos acidentes fatais com eletricidade em indústrias envolvem profissionais experientes, mesmo possuindo programas de segurança que parecem ser eficazes, seguindo as melhores práticas. 

Um comitê do governo americano, levantou na década de 1990, as causas destas fatalidades, analisando 323 fatalidades. Neste estudo foram analisados onze indicadores que poderiam ser considerados fundamentais num programa de segurança que poderia evitar estes acidentes.

Apesar de ser uma estatística da década de 1990, acredito que mesmo que se fizesse um levantamento hoje, não deve mudar em nada.

Nesta coluna, estamos fazendo um detalhamento de alguns destes pontos. Neste terceiro artigo são apresentados mais dois dos onze pontos levantados pelo estudo, com comentários do meu ponto de vista.

5 – Por assumir que as pessoas com experiência não se sujeitam a riscos quando executam os trabalhos. 

  • 80 % das mortes foram com pessoas experientes no seu trabalho.

Em se falando em pessoas não advertidas no local de trabalho, os trabalhadores que não tem experiência em eletricidade, normalmente não se sujeitam aos riscos da eletricidade, pois pela natureza humana não se arriscam com o desconhecido, exceto aqueles que menosprezam o poder da eletricidade ou superestimam a sua habilidade em dominar a situação de risco. No passado, antes da revisão da NR-10 em 2004, para ser eletricista bastava constar na carteira profissional que era eletricista para galgar a profissão. Alguns tiveram a sorte de ter um mestre de obras consciente dos riscos, outros progrediram só na coragem. A eles, algumas empresas ou colegas, não permitem submeter aos trabalhos de risco.  Não estamos falando destas pessoas como pessoas experientes, mas sim aqueles que tem formação técnica, sejam eles técnicos ou engenheiros que realizam trabalhos mais minuciosos.

Eu, em particular, conheci alguns profissionais experientes que sofreram acidentes graves e até fatais com a eletricidade. Alguns tinham a função de supervisor encarregado de energização de equipamentos elétricos, ou responsável pela realização dos trabalhos de comissionamento e identificação de problemas em equipamentos energizados.

Por que isto ocorre?  Por falta de experiência? Por falta de conhecimento?

Existem muitos fatores.

Só conhecimento técnico não é prevenção para segurança. Eu arriscaria afirmar que, para segurança em eletricidade no trabalho, o conhecimento técnico pode até colaborar para levar os profissionais a tomarem atitudes mais arriscadas que pessoa menos experientes não tomariam. Como resolver este impasse? Elaborando o planejamento de trabalho e de segurança independentes.

Sim, devemos ter estes dois planejamentos distintos. O profissional técnico dita as fases de trabalho técnico a serem executados, e outro o profissional de segurança do trabalho, ou outro colega de trabalho, também experiente, questionando os aspectos de segurança e acompanhando o trabalho, interrompendo o trabalho quando houver desvio. Ambos sempre alertas pelos riscos.

6 – Por assumir que a pessoa irá identificar e informar sobre os riscos do local de trabalho.

  • A maioria das pessoas conheciam onde estavam os perigos, mas poucos comunicaram.

Teoricamente, qualquer pessoa deve identificar os riscos do local de trabalho, informar ao supervisor e, se for necessário, apelar ao direito de recusa do trabalho. TEORICAMENTE.

Talvez pela primeira vez a pessoa comunica a existência do perigo no local de trabalho, mas se este não for acatado pelo supervisor, ainda mais quando este supervisor não se expõe ao risco e não está comprometido pela segurança do trabalhador, na segunda vez, esta pessoa não irá colocar em perigo o seu emprego e ser ridicularizado como resmungão e informar qualquer risco. Ainda, se não for dada esta oportunidade de informar o risco, a receptividade às preocupações da pessoa, este irá ter uma formação profissional menos segura por receio de ser ridicularizado por não assumir riscos para executar um trabalho. Ter medo é uma dádiva para a segurança em eletricidade, e atender, ouvir e receber as informações é uma atitude que qualquer supervisor ou outro profissional deve praticar para que não ocorra acidentes.

 A percepção do risco, a percepção de que algo está errado no momento de executar o trabalho é algo que deve ser avaliado pelo supervisor no momento que for informado. E deve ser incentivado! E não depois de acontecer um acidente culpar a pessoa que deveria ter informado sobre os riscos.

No momento da informação é importante também avaliar o estado psicológico da pessoa, ou situação do trabalho. Muitas vezes a pressão psicológica, a cobrança sobre resultado do serviço pode inibir a percepção do risco.

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