“Se tudo é urgente, nada é urgente”.

Quem nunca ouviu esta expressão? E ela nunca esteve tão atual. Afinal, é fácil perceber. Basta uma conversa rápida por telefone (ou pessoalmente) para ouvirmos as mais diversas expressões de falta de fôlego. Todos estamos “correndo” ou na “maior correria”. Mas de onde vem esta correria toda? Até que ponto esta expressão já virou um vício? A correria está onipresente? Por que? Será que estamos mesmo correndo ou queremos parecer estar correndo? Até este artigo parece estar correndo. Frases curtas. Várias perguntas seguidas. É de propósito caro leitor. Cansou? Ufa! Eu também!

Este artigo tem como objetivo refletir sobre toda esta correria. A correria pressupõe a ideia de que estamos executando inúmeras atividades urgentes. E se estamos dedicando muito tempo para o ‘urgente’, não sobra tempo para o ‘importante’. O fato é que quando o importante deixa de ser tratado com a devida ‘importância’, como o próprio nome exige, ele passa a ser urgente.

Creio que vale a pena abordar um ponto ainda mais delicado. Qual o critério que estamos usando para diferenciar o urgente do importante? Esta pergunta é poderosa e o exercício de responde-la poderá trazer insights significativos. Posso estar errado, mas vejo uma certa idolatria pela “correria”. Parece que estamos em uma espécie de ditadura onde quem não está correndo é excluído. A pressa virou item de grife a ponto de desejarmos o seu último modelo. Sempre temos uma observação ilustrando que estamos na moda, ou seja, que a nossa pressa de hoje é maior do que a de ontem.  Em alguns momentos, é até perigoso dizer que tudo está bem. “Bem” não é suficiente. Pode despertar desconfianças. Se for para dizer que estamos “bem” é mais adequado dizermos “bem corrido”, e de preferência com uma voz cansada e ofegante.

Bom, vamos imaginar que isto não seja a regra. E que a grande maioria das pessoas está de fato correndo bastante. Todos estamos sobrecarregados de trabalho, ainda mais nesta crise. As empresas estão exigindo cada vez mais e fornecendo cada vez menos recursos. Tudo é para ontem e as mudanças estão imprimindo uma velocidade alucinante. As condições de contorno exigem um ritmo forte e temos que nos adaptar. É verdade. Como fazer para resolver esta questão?

Para tentar responder a esta pergunta, vamos partir do princípio de que a nossa correria toda é legítima e não um mero item de grife, que utilizamos para ampliar o nosso status social. Neste caso, temos que fazer escolhas. Não são escolhas fáceis muito menos simples. Não há mágica, mas com uma boa dose de disciplina, planejamento e assertividade, podemos fazer alguns ajustes importantes.

O que fazer?

  • Faça um inventário do seu valor

A relação de trabalho é primordialmente uma troca. Trocamos nosso tempo e intelecto por uma remuneração que (em tese) deveria ser justa. É uma troca de valores. Trazemos algum valor para a empresa e ela, em contrapartida, nos remunera de acordo com este valor. Uma remuneração que envolve coisas que transcendem o salário. Em uma relação de troca, quanto mais valor trazemos, maior deveria ser a nossa capacidade de negociar. Contudo, o conceito de valor é relativo: ele é a somatória da “percepção de valor” dos diversos stakeholders da cadeia: seu chefe, sua equipe, os acionistas, o cliente, etc. E percepção de valor é muito subjetiva. Estes stakeholders possuem agendas próprias e é preciso entender com precisão o que cada um entende como valor. Portanto, devemos fazer um inventário amplo e detalhado do valor que trazemos, tirando uma radiografia para poder enxergar alguns aspectos não visíveis no cotidiano. Este inventário pode ser feito através de algumas perguntas. Por exemplo:

  • Quantas horas por semana você se dedica ao trabalho?
  • Qual o valor que você traz para o seu chefe? Sua equipe? Para o cliente?
  • Há maneiras tangíveis de medir este valor?
  • O que você poderia passar a fazer para gerar mais valor?
  • Qual o prejuízo gerado se você simplesmente deixasse de pensar, decidir, executar, gerenciar, liderar, etc.?
  • Há maneiras tangíveis de medir este prejuízo?
  • Negocie a relação de troca

A relação de trabalho é uma troca. E em muitos casos esta troca precisa de ajustes para ficar equilibrada. Existem diversas formas para se fazer isto. Uma vez que temos uma maior clareza sobre o nosso valor, é nosso dever negociar eventuais desequilíbrios. Com cuidado, usando estratégias adequadas de persuasão e venda de ideias é possível sim colocar questões relativas a este desequilíbrio e tentar obter algum ajuste. Estamos falando de uma negociação ampla, franca, legítima, a ser conduzida de forma assertiva por uma pessoa que está nitidamente sobrecarregada e precisa equilibrar esta relação de troca, sob pena de haver desgastes irreversíveis. O passo anterior irá trazer a clareza necessária para uma boa negociação. Ao descobrir o verdadeiro valor que trazemos, nossa autoconfiança aumenta e ampliamos a convicção sobre a importância de negociar e fazer os devidos ajustes.

  • Dedique tempo para o ‘importante’

O ‘importante’ só tem este nome porque merece a nossa atenção. Faça uma lista das coisas (ou das pessoas) importantes para as quais você precisa dedicar mais tempo. Eleja pelo menos uma ação para cada uma delas e desafie-se a realiza-las dentro de um prazo específico. Somos feitos das nossas escolhas. Lembre-se que o urgente de hoje pode ter sido o ‘importante’ de ontem.

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