Por Sérgio Santos

A inspeção da Proteção contra Descargas Atmosféricas (PDA) tem o objetivo de garantir que o Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA) e as Medidas de Proteção contra Surtos (MPS) estejam conforme foram projetadas.

Figura 1. Descargas atmosféricas são fenômenos naturais não controlados pelo homem.

É importante que o responsável pela edificação possua uma cópia do projeto original, para que o profissional que fizer a inspeção verifique se o que está instalado naquele momento corresponda ao que foi projetado. Caso exista alguma divergência deve-se verificar o que, porque e quando foi feita esta modificação e se ela deve, ou não, ser mantida.

No Brasil a Proteção contra Descargas Atmosféricas é objeto da norma ABNT NBR5419:2015¹, Proteção contra descargas atmosféricas. Esta norma nos indica o que deve ser feito para proteger a estrutura contra o impacto direto de uma descarga (SPDA) e como devemos proteger nossos sistemas eletroeletrônicos contra os efeitos de descargas atmosféricas diretas ou indiretas (MPS).

Devido a versão atual da NBR5419 ter sido publicada em 2015 a grande maioria das edificações possuem hoje apenas o SPDA, construído segundo a edição de 2005, ou versões anteriores desta norma. Neste caso existe apenas a proteção da estrutura, composta basicamente do subsistema de captação (Que recebe o impacto da descarga atmosférica), descida (Para conduzir a corrente da descarga para o solo) e aterramento (Para dissipar esta corrente no solo sem causar tensões de passo elevadas). Uma inspeção deve verificar se estes subsistemas estão conforme o projeto e se cumprirão as funções que deles se espera.

Um SPDA tem o objetivo de proteger as pessoas, outros seres vivos e estruturas contra as consequências de uma descarga atmosférica em uma edificação. Nenhuma edição da NBR5419 prevê a proteção em áreas abertas, sendo necessário que as pessoas que se encontrem nas praias, piscinas, parques, quadras de futebol, etc. se abriguem em locais fechados para que não sofram danos causados por uma descarga atmosférica.

No Brasil hoje um SPDA eficiente deve ser projetado segundo a norma NBR5419:2015, o número 2015 indicando qual o ano da sua publicação. Em 2015 foi publicada a última edição desta norma, que substituiu a versão anterior de 2005.

Uma norma técnica deve ser constantemente revisada para que novas informações, produtos e sistemas sejam aplicados, tornando as instalações elétricas em geral, e os SPDAs em particular, mais eficientes.  Quando uma norma é atualizada não é obrigatório que as instalações existentes sejam modificadas para atender a novas recomendações, até porque seria uma exigência impossível de ser cumprida. A nova versão deve ser aplicada para novas edificações e na reforma de edificações existentes que modifiquem as suas características originais. O que não impede que o profissional responsável pela inspeção indique modificações que tornem o SPDA mais eficaz.

Exemplificando em relação à um prédio, ao reformá-lo sem alterar suas características iniciais, modificando a sua cor, substituindo o encanamento ou trocando o motor da piscina, não precisamos atualizar o SPDA. Mas ao instalarmos uma nova guarita, fixarmos uma antena coletiva ou modificarmos a posição da portaria, será necessário revisar o SPDA para incluir os novos elementos da edificação e considerar a aplicação das MPSs. Neste caso a revisão deve ser feita com base na nova norma já que a antiga não está mais válida. Por isso é fundamental possuir o projeto original, para sabermos em que ano ele foi feito e qual a versão da norma válida naquele momento. Ao mesmo tempo quem fizer a inspeção deverá possuir a edição atual e as anteriores da NBR5419.

É o item 7 da parte 3 da norma ABNT NBR5419:2015 que trata da manutenção, inspeção e documentação do SPDA. Em seu item 7.1 é dito que a eficácia do SPDA depende da sua instalação, manutenção e dos ensaios realizados ao longo de sua vida útil.
Os objetivos das inspeções são assegurar que:

  1. O SPDA esteja de acordo com um projeto baseado nesta norma (No caso a edição válida quando o projeto foi aprovado);
  2. Todos os componentes do SPDA estejam em boas condições e sejam capazes de cumprir suas funções, não apresentando corrosão e atendendo às suas respectivas normas de produto²;
  3. Qualquer nova construção ou reforma que altere as condições iniciais previstas no projeto do SPDA, além de novas tubulações metálicas, linhas de energia e sinal que adentrem a estrutura e que estejam incorporadas ao SPDA externo³ e interno4 se enquadrem nesta norma.

As inspeções devem ser realizadas de acordo com o item 7.2 da parte 3 da norma ABNT NBR5419:2015 nos seguintes momentos:

  1. Já durante a construção da estrutura, após a instalação do SPDA, no momento da emissão do documento “as built”, após alterações ou reparos, ou quando houver suspeita de que a estrutura foi atingida por uma descarga atmosférica;
  2. Inspeções visuais semestrais, realizadas pelo próprio pessoal do condomínio, apontando eventuais pontos deteriorados no sistema;
  3. Periodicamente, realizada por profissional habilitado e capacitado a exercer esta atividade, com emissão de documentação pertinente, em intervalos determinados, assim relacionados:

 

  • 3.1 Um ano, para estruturas contendo munição ou explosivos, ou em locais expostos à corrosão atmosférica severa (regiões litorâneas, ambientes industriais com atmosfera agressiva etc.), ou ainda estruturas pertencentes a fornecedores de serviços considerados essenciais (energia, água, sinais etc.);
  • 3.2 Três anos para as demais estruturas.

Como em qualquer manutenção, as inspeções são fundamentais para a confiabilidade de um SPDA. O responsável pela edificação deverá ser informado de todas as irregularidades encontradas através do relatório técnico emitido após cada inspeção periódica. Cabe ao profissional que emitir a documentação recomendar, baseado no que for observado, o prazo para a manutenção no sistema, que pode variar desde uma correção que deve ser feita imediatamente até outra que deva ser feita de forma preventiva para evitar problemas futuros. Estas observações servirão de base para a próxima inspeção, de tal forma que será possível a existência de um histórico do SPDA para ajudar os administradores da edificação.

Para esta sequência de inspeções e também devido a questões legais deve ser mantida no local, ou em poder dos responsáveis pela manutenção do SPDA a seguinte documentação:

1) A verificação da necessidade da existência do SPDA (externo e interno), além da seleção do respectivo nível de proteção para a estrutura, por meio de um relatório de uma análise de risco;

2) Os desenhos em escala mostrando as dimensões, os materiais e as posições de todos os componentes do SPDA externo e interno;

3) quando for aplicável, por questões técnicas, os dados sobre a natureza e a resistividade do solo, constando detalhes relativos à estratificação do solo, ou seja, o número de camadas, a espessura e o valor da resistividade de cada uma;

4) O registro de ensaios realizados no eletrodo de aterramento e outras medidas tomadas em relação a prevenção contra as tensões de toque e passo. Verificação da integridade física do eletrodo (continuidade elétrica dos condutores) e se o emprego de medidas adicionais no local foi necessário para mitigar tais fenômenos (acréscimo de materiais isolantes, afastamento do local etc.), descrevendo-o.

Um SPDA não é um “enfeite” no alto de um prédio e se uma edificação nunca foi atingida por um raio, não significa que ela nunca será. Quem trabalha com descargas atmosféricas sabe dos perigos de um raio cair em uma edificação desprotegida, por não ter um SDPA ou por ele estar em desacordo com a norma. Qualquer investimento na instalação, adequação ou manutenção do SPDA será muito menor do que os prejuízos causados por uma descarga atmosférica atingindo uma edificação, incluindo a morte de uma pessoa. Para que estes prejuízos não aconteçam é fundamental observar os pontos a seguir.

  1. A inspeção do SPDA deve ser feita por profissional qualificado e com experiência neste assunto;
  2. Um SPDA pode estar aparentemente em perfeitas condições, mas se um dos seus componentes estiver comprometido, toda a edificação pode estar vulnerável a uma descarga atmosférica;
  3. Não é necessário adequar o SPDA a cada nova edição da norma NBR5419. As inspeções devem ser realizadas com base na edição da norma válida quando o projeto foi aprovado.

Notas

1– Norma ABNT NBR 5419:2015, Proteção contra descargas atmosféricas. Composta de 4 partes:

1.1 ABNT NBR 5419-1:2015. Proteção contra descargas atmosféricas
Parte 1: Princípios gerais.

1.2 ABNT NBR 5419-2:2015. Proteção contra descargas atmosféricas
Parte 2: Gerenciamento de risco.

1.3 ABNT NBR 5419-3:2015. Proteção contra descargas atmosféricas
Parte 3: Danos físicos a estruturas e perigos à vida.

1.4 ABNT NBR 5419-4:2015. Proteção contra descargas atmosféricas
Parte 4: Sistemas elétricos e eletrônicos internos na estrutura.

2 – Normas de produto são as normas que determinam as características dos componentes do SPDA, como por exemplo hastes de aterramento, captores e cabos.

3 – O SPDA externo é a parte do SPDA composto pelos subsistemas de captação, descida e aterramento.

4 – O SPDA interno é a parte do SPDA composto pelas ligações equipotenciais e/ou isolação elétrica do SPDA externo. Seu objetivo é evitar centelhamentos dentro da edificação.