Parece consenso a necessidade de ampla reorganização na economia brasileira para que tenhamos dias mais promissores, com inflação controlada, mais oportunidades de trabalho e recuperação da classe média que parecia ter enfim emergido para uma melhor situação em nosso país.

Como em nossas famílias, as reorganizações econômicas significam ajustes que, embora amargos, têm a finalidade de nos colocar novamente no controle da situação. Portanto, até aí nada de mais a não ser o esforço de cada um de nós para contribuir com esse processo que deverá nos levar a dias melhores.

Não obstante, novamente tomando como exemplo a gestão familiar de cada um de nós, os primeiros cortes que fazemos para nos readequarmos a uma situação onde tenhamos novamente o controle, são em itens que não sejam básicos para o sustento e bem-estar de nossos entes queridos, certo?

Pois bem, esse é o ponto a ser questionado. Será que as empresas brasileiras, frente ao período de restrições pelo qual terão que passar, manterão como prioridade a prevenção de acidentes e a segurança de seus empregados?

Infelizmente a história recente não nos permite concluir sem margem de dúvida que isso acontecerá. Restrições a ações de treinamentos e capacitação, investimentos em medidas de prevenção postergadas, entrega de equipamentos e mesmo de EPI a intervalos mais dilatados são apenas algumas das providências que algumas das organizações brasileiras tomam nesses momentos de crise. A meu ver, equivocadas.

De forma alguma atravessamos períodos de restrição tão profundos como o que iniciamos sem cortar uma série de gastos e repensar em outros tantos investimentos anteriormente planejados. No entanto, há que se escolher o que será postergado de forma responsável a fim de não colocar em risco tanto o negócio (“core business”) da empresa, quanto os trabalhadores que nela atuam.

Estudiosos das organizações mundo afora afirmam que os momentos de crise podem se constituir em incubadores de novas ideias e ações responsáveis por um quase renascimento do negócio em bases mais sustentáveis e com resultados ainda melhores do que antes. Sem dúvida, quando tomamos as decisões acertadas durante o período de escassez, podemos nos beneficiar delas quando o ultrapassamos. Por exemplo, acredito que quando for possível transpormos a crise hídrica ora enfrentada, nenhum de nós irá voltar ao mesmo nível de gasto de água anteriormente verificado, ou permitirá que qualquer desperdício desse precioso bem volte a ocorrer. Ou, quando vencermos a atual epidemia de dengue, certamente nos preocuparemos mais em prevenir condições que possam facilitar que outra situação avassaladora como essa volte a ocorrer. Concluindo, aprendemos nas crises como podemos nos prevenir para evitarmos sua repetição. Ou, pelo menos deveríamos aprender.

Assim, espero que as decisões das empresas para que consigam atravessar a tempestade que se avizinha tomem como base a necessária reflexão dos possíveis impactos negativos aos seus trabalhadores, estudando alternativas que permitam passar por esse período de turbulência, emergindo todos, empresa e trabalhadores, mais sábios e produtivos.

As tempestades um dia vão embora! As pessoas devem ficar e continuar a construir suas vidas e a sociedade onde vivem.

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